[conto] o galo

por fran Lara

Quis escrever uma história de um galo sem cabeça que foge pra ver o mundo. Não consegui. Não tenho mais a coragem que tinha há um tempo atrás. No fim da história, o galo tenta cantar, mas vendo que não sai nada, ele volta à fazenda e deixa seu dono terminar o abate. Me identifico com o galo sobre o qual não consegui escrever de fato. Já não piso no mesmo chão que antes e não consigo me pôr de pé para olhar pro alto buscando inspiração numa lua bonita como já fiz tantas vezes.

Desnudo do que um dia foi minha maior virtude, o que me resta é deixar a lama me puxar pra baixo e nadar junto aos outros invertebrados silenciosos dos quais sempre tive pouco interesse. Criaturas frágeis com mil jeitos de se esconder, consumindo qualquer coisa de maior ou menor qualidade, deixando uma marca que será varrida no próximo sopro das árvores acima de nós. Talvez haja alguma sabedoria nesses bichos que vivem pela sua rotina, mas eu ainda sou tolo demais para entendê-la

O que me pergunto é, se o galo não canta, como chega o próximo dia? Quem vai lembrar o Sol de dar seu ar da graça pra que eu possa tentar de novo? Talvez você me diga pra me orientar na cigarra, mas ela pouco aparece e seu canto é francamente insuportável. Afinal, que vida seria essa que meu gosto, minha coragem e minha vivacidade simplesmente se vão em determinada estação? Onde estão aquelas palavras repletas de vísceras que um dia eu escrevi para honrar a história deste galo fictício? Por que de repente o indigesto parece ser demais pra mim?

O galo nunca soube da potência de seu canto até não tê-lo mais; seria essa a moral dessa fábula. Posso ser acordado de outras formas, e a astronomia já me provou que o Sol nasce independente de quaisquer animais, mas agora os dias são esses, que começam com o ruído sintético de um despertador enquanto enfio uma colher de um alimento tão insípido que eu nem sequer identifico. E o galo? Alguém se lembra do galo? Não ser outro patético que vive das glórias já bradadas pode ser difícil quando as novas histórias lhe parecem tão irrelevantes ou apenas distantes de você.

Então me sento num vaso e arreio as calças. Fico mais tempo que o necessário no banheiro porque decidi abrir o bloco de notas para escrever algo, já que dizem por aí que faz bem. Daí, tento escrever sobre o tal galo, coitado, e me assusto com minha própria ideia, não sei se por não mais me reconhecer ou se por ver demais de mim nessa tosquice.

Nem uma página inteira, que decepção. Mas dessa vez eu pareço estar gostando pelo menos! Talvez haja alguma esperança de que o tesão volte ao meu corpo, nem que seja por um conta gotas, como aquele galo da história real que ficou vivo sem cabeça por 18 meses e era alimentando por seus donos por um conta gotas. Ele não tem relação com o galo que eu quase escrevi sobre. Este seria imaginário mesmo, ainda que a crueldade seja a mesma.



Uma resposta para “[conto] o galo”

  1. que lindo!

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